Audiência de custódia: o que realmente acontece nas primeiras 24 horas da prisão?
Entenda os direitos do preso e o papel decisivo do juiz na análise da legalidade da prisão
Por Esdras Dantas de Souza
A audiência de custódia é, hoje, um dos momentos mais
importantes do processo penal brasileiro.
É ali, nas primeiras 24 horas após a prisão, que se decide algo fundamental:
Ø
a liberdade ou a manutenção da prisão de uma
pessoa.
Mais do que um ato formal, trata-se de um verdadeiro controle
imediato do poder do Estado sobre o indivíduo.
Mas afinal:
Quais são os direitos do preso nesse momento?
O que o juiz deve analisar?
E onde ocorrem os erros que podem mudar o rumo de um processo?
É isso que vamos esclarecer — de forma direta, didática e
com foco na prática.
O que é a audiência de custódia?
A audiência de custódia é o ato em que o preso é apresentado
pessoalmente ao juiz, no prazo de até 24 horas após a prisão.
Está prevista no Código de Processo Penal (art. 310), e
também fundamentada na Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Em termos simples:
É o momento em que o juiz verifica se a prisão foi legal e
decide o que fazer com o preso.
Por que a audiência de custódia deve ocorrer em até 24
horas?
Porque a liberdade é a regra.
A Constituição Federal garante que ninguém será privado da
liberdade sem o devido processo legal.
Por isso, o sistema exige uma resposta rápida do Judiciário.
O Supremo Tribunal Federal já consolidou:
A apresentação do preso ao juiz sem demora é um direito
fundamental.
Quais são os direitos do preso na audiência de custódia?
Esse é o ponto central.
Na audiência de custódia, o preso não está ali apenas para
“ser visto”. Ele possui direitos claros:
✔️ 1. Direito de ser ouvido pelo
juiz
O preso pode relatar como ocorreu a prisão.
✔️ 2. Direito de permanecer em
silêncio
Ele não é obrigado a produzir prova contra si.
✔️ 3. Direito à assistência de
advogado ou defensor
Sem defesa técnica, a audiência perde sua essência.
✔️ 4. Direito de denunciar
maus-tratos ou tortura
O juiz deve investigar qualquer alegação de violência.
Ø
Aqui está um ponto crucial:
A audiência de custódia também serve para coibir abusos
policiais.
✔️ 5. Direito a uma decisão
fundamentada
O juiz deve justificar qualquer decisão de manter a prisão.
O que o juiz decide na audiência de custódia?
Ao final da audiência, o juiz pode:
ü Relaxar
a prisão
Quando houver ilegalidade.
ü Conceder
liberdade provisória
Com ou sem medidas cautelares.
ü Converter
em prisão preventiva
Se houver requisitos legais (art. 312 do CPP).
Pergunta comum (e importante):
O juiz pode manter a prisão automaticamente?
Não.
O Superior Tribunal de Justiça entende:
A prisão deve ser sempre fundamentada em elementos
concretos.
Exemplo prático (como acontece na realidade)
Imagine:
Um indivíduo é preso por furto simples, sem violência.
Na audiência de custódia, o juiz analisa:
- Não
há antecedentes
- O
crime não envolveu violência
- O
acusado tem residência fixa
Resultado provável:
Liberdade provisória com medidas cautelares.
Agora, outro cenário:
Crime com violência, reincidência e risco à ordem pública.
Resultado:
Possível conversão em prisão preventiva.
Principais erros que ocorrem na prática
Aqui está o ponto que diferencia o advogado comum do
estratégico:
·
Não explorar ilegalidades da prisão
·
Ignorar sinais de abuso policial
·
Não argumentar sobre medidas cautelares
·
Falta de preparo para a audiência
A audiência de custódia não é burocrática.
Ela é decisiva.
Entendimento dos tribunais superiores
O Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça
têm posição firme:
- A
audiência de custódia é direito fundamental
- A
ausência pode gerar ilegalidade da prisão
- A
manutenção da prisão exige fundamentação concreta
Em outras palavras:
Não basta prender. É preciso justificar.
Pontos de atenção para advogados
Se você atua na área penal, observe:
✔️ Analise a legalidade da prisão
✔️
Verifique possíveis abusos ou violência
✔️
Prepare argumentos para liberdade provisória
✔️
Utilize medidas cautelares como alternativa
✔️
Atue com firmeza — esse é o momento mais importante do início do processo
Conclusão: o momento mais importante da liberdade
A audiência de custódia é mais do que um procedimento.
Ela é um filtro constitucional contra abusos.
Quando bem aplicada, protege direitos fundamentais
Quando negligenciada, legitima injustiças
Por isso, sua importância é absoluta no sistema penal
moderno.
Porque, no final, tudo se resume a uma pergunta simples:
O Estado agiu dentro da lei… ou ultrapassou seus limites?
*** Este conteúdo integra o acervo de aulas e
exposições desenvolvidas pelo autor ao longo de sua trajetória acadêmica e
institucional, reunindo reflexões construídas em atividades de ensino jurídico
em Brasília e em encontros da Associação Brasileira de Advogados (ABA), com o
propósito de contribuir para a formação prática e o aprimoramento contínuo dos
operadores do Direito.
Autor:
Esdras Dantas de Souza — Advogado, Professor,
Especialista em Direito Público Interno e Presidente da Associação Brasileira
de Advogados (ABA)
www.abanacional.com.br
Comentários
Postar um comentário